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Sabem aqueles textos sábios sobre como não se deve ler os emails logo de manhã nem levar o telemóvel para a cama antes de dormir, como Trabalhar apenas 4 dias por semana: o exemplo de uma startupé positivo separar a vida profissional da pessoal assim que se sai do trabalho? Faço tudo ao contrário. Sento-me no sofá a trabalhar até à meia-noite com o computador ao colo, começo a ver emails antes de lavar a cara de manhã e já me enfiei várias vezes em Starbucks a meio de um Domingo para me sentar a escrever e publicar artigos.

Este tormento de estar "sempre on" distribui-se por toda a semana, o que é agravado por haver muitos eventos a acontecerem ao Sábado. Na maior parte das vezes, significa que qualquer dia é dia de trabalho.

Foi por isso que me encolhi na cadeira quando comecei a ouvir Ryan Carson, CEO da startup Treehouse Island, a falar de como toda a gente na sua empresa trabalha apenas quatro dias por semana e recebe salário integral. Assim uma espécie de calduço na nuca, a lembrar que trabalhar a toda a hora não é necessariamente sinónimo de zelo, responsabilidade ou idoneidade profissional.

"O dinheiro não vos pode comprar tempo", afirmou Carson, numa conferência com milhares de startups em Las Vegas, a Collision. "Por isso, têm de trabalhar menos", resumiu.

"Certo", pensei, "mas normalmente quem diz isso é quem não tem problemas de dinheiro." Aqui está este fundador e CEO, jovem, a explicar como é que a sua empresa só tem semanas laborais de 32 horas e que se distribuem ao longo de 4 dias de trabalho. Pensem nisso: trabalhar de segunda a quinta, ou de terça a sexta, ou de Domingo a quarta. Parece bom demais, o tipo de coisa que fica bem num panfleto comercial mas não tem aplicação possível. Provavelmente ele leva trabalho para casa.

"Como CEO, não trabalho secretamente durante o fim de semana", garantiu. Tudo bem, mas talvez a empresa seja pequena e de baixo risco. Mas também não é o caso. A Treehouse foi fundada em 2011 e oferece uma plataforma interactiva que ensina a programar; tem mais de 130 mil estudantes em todo o mundo e 100 empregados. As receitas anuais rondam os 10 milhões de euros - não é propriamente um negócio de vão de escada.

"Fazemos tudo o que as empresas de sucesso fazem, mas trabalhamos menos, e pagamos salários completos ao nível de mercado", continuou o CEO. Oferecem também os 18 dias anuais de férias que são standard no mercado americano.

O que Carson disse depois foi o que mais custou ouvir: "tenho amigos que também são CEO e que pensam que é bom chegar ao fim de semana de rastos, exaustos, serem os últimos a sair. Eu acho que isso é uma grande treta. Estar cansado significa que você é preguiçoso e não consegue controlar a sua vida." É duro ouvir isto. Existe uma glorificação dos dias intermináveis, dos profissionais estóicos que passam 14 horas no escritório, que estão sempre acessíveis (até nas férias) e que põem o trabalho à frente de tudo. Existe um desdém por quem sai mais cedo, enquanto os outros fazem serão, por quem leva o saco do ginásio ao ombro ou faz planos para jantar fora com amigos, quem se "pisga" quando ainda é de dia.

"Se vocês não conseguem mudar, lembrem-se: dentro de 200 mil fins-de-semana vão estar todos mortos", disse Carson.

Mas como é que na Treehouse se consegue fazer o trabalho de cinco dias em quatro? Com estas regras:

- Trabalham por turnos (de segunda a quinta, de terça a sexta...) para que haja sempre alguém disponível. Ninguém trabalha horas extras

- Utilizam duas ferramentas para aumentar a produtividade: Asana, que elimina a "tralha" no email, e o HipChat, para comunicarem internamente - a regra é não se interromperem uns aos outros a todo o momento

- As pessoas tornam-se mais eficientes quando têm mais tempo para si e para a sua família.

Carson terminou dizendo que tanto Facebook como Google têm tentado contratar alguns dos seus executivos sem sucesso. Porque quando se tem um bom salário e se trabalha menos, é difícil voltar às semanas loucas de 50 ou 60 horas, em que a única coisa de que se precisa e não se tem é o que nenhum dinheiro compra - mais tempo.

Fonte: Dinheiro Vivo