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O salário médio líquido está a aumentar, mas essa tendência positiva só acontece devido aos contratos a tempo completo.Balancing Budget

O salário médio líquido dos 302 mil trabalhadores em part time (tempo parcial) estava, no final de 2015, nos 341 euros mensais e não tem parado de descer desde 2013. Pelo contrário, a remuneração dos 3,4 milhões de contratados a tempo inteiro (35 ou 40 horas semanais, dependendo do setor) está nos 865 euros por mês e está a crescer nos últimos anos.

Contas feitas, o salário médio líquido dos trabalhadores por conta de outrem (função pública e setor privado) situava-se, no ano passado, nos 828 euros, estando a aumentar ininterruptamente pelo menos desde 2011, ano da chegada da troika a Portugal. No entanto, como se pode constatar pelos números fornecidos ao DN/Dinheiro Vivo pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), este aumento tem sido feita à custa dos horários completos.

“O nosso modelo de desenvolvimento é péssimo. Há uma perceção negativa sobre o tempo parcial. No final dos anos 70, eu sugeri o modelo part time para as mães com filhos pequenos e não fui bem entendido, mas isso era e é corrente nos países escandinavos. Ainda estamos presos ao ideal do emprego para a vida, que tem atrás de si benefícios como as baixas e o pagamento da Segurança Social pelo patrão”, considera Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade. “Os jovens conseguem ganhar em dois empregos a tempo parcial mais do que um emprego a tempo completo, pelo menos se estivermos a falar das novas profissões ligadas às tecnologias de informação e comunicação”, acrescenta o gestor.

Os trabalhadores a tempo parcial estão satisfeitos? Deduz-se que não pelo nível médio salarial e pela respetiva evolução nos últimos anos. Mas há outro dado que aponta para a insatisfação: quase 80% dos trabalhadores a tempo parcial (239,5 mil dos 302 mil) estavam em situação de subemprego no ano passado. Ou seja, tinham um emprego no qual cumpriam um horário inferior à duração que é normal para aquele posto de trabalho, declarando que gostariam de trabalhar mais horas.

O salário mínimo nacional aumentou de 505 para 530 euros no arranque deste ano. É um valor bruto que equivale, na prática, a um ordenado líquido de aproximadamente 472 euros. E este último valor encaixa no escalão de 310 a 600 euros, onde o INE identifica 963 mil trabalhadores a tempo completo e 74,8 mil a tempo parcial. Dito de outra forma, mais de um quarto de todos os trabalhadores por conta de outrem ganha entre 310 e 600 euros.

“O aumento do salário mínimo foi das piores coisas que aconteceu. As estatísticas do INE mostraram logo quebras no emprego nos primeiros meses do ano. Os empregadores retraem-se devido ao aumento dos custos com o trabalho, sobretudo quando têm encomendas com preço certo já combinado”, afirma o antigo presidente da CIP. Os números do INE confirmam essa tendência. Em janeiro de 2016, a estimativa provisória da população empregada foi de 4477,6 mil pessoas, tendo diminuído 0,1 % face ao mês anterior (4,4 mil). “E Portugal tem outro problema: a evolução do salário mínimo é no sentido de uma aproximação cada vez maior ao salário médio, algo que não aconteceu noutros países”.

O Governo anunciou, recentemente, alterações que fixam em 550 euros as deduções por filho em sede IRS. A medida irá beneficiar os trabalhadores que ganham até 900 ou 1000 euros. É o que Rocha Andrade, secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, chama de “classe média”. Os valores líquidos dados pelo INE mostram que 60% dos trabalhadores por conta de outrem ganham até 900 euros; no patamar acima de 2500 euros estão apenas 1,43% do total.

Gestores perdem salário

Os gestores e executivos estão a ganhar menos; os trabalhadores não qualificados já recuperaram as perdas. O INE mostra que, desde 2011, os gestores perderam 108 euros, com o salário médio líquido a situar-se nos 1535 euros. O ponto mais baixo neste período foi o ano de 2014, em que o vencimento dos gestores foi de 1508 euros. Os trabalhadores não qualificados foram perdendo rendimento até 2013 e, daí em diante, recuperaram. O salário médio líquido foi de 477 euros em 2015, dois euros acima do valor de 2011. As mulheres ganham menos que os homens, independentemente do cargo que ocupam. Mas as executivas já estão a ganhar mais do que em 2011. As operárias não. “Em alturas de crise é mais difícil cortar em salários que já são muito baixos. Quando a economia começa a recuperar, a subida também é mais rápida no topo da pirâmide”, diz Tiago Borges, da consultora Mercer.

Fonte: Dinheiro Vivo