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É completamente off-topic, mas não resisti dado me rever completamente e subscrever as linhas abaixo.Tributo à Maternidade Alfredo da Costa (MAC)

Entrei na Maternidade Alfredo da Costa no dia 31 perto da hora de almoço. Uma suspeita (depois confirmada) de ruptura da bolsa levou-me às urgências.

 

A sala de espera está cheia.

 

Espero muito pouco para entrar e fazer um CTG e confirmar que está tudo bem. A sala não está pintada de novo, o espaço é apertado, mas os procedimentos são minuciosos e atentos. Uma enfermeira vai buscar um chá para uma grávida nervosa. Não me lixem, não é a sua obrigação.

À porta, um médico tenta acalmar um pai que quer entrar à força para acompanhar uma mãe que não o quer na sala de partos. Telenovelas à parte, o médico resolve a situação de forma diplomática mas firme. Não me lixem, não é a sua obrigação.

 

Fico internada no quarto 6. Percebo que houve modificações desde o meu anterior parto. Condições ótimas. Auxiliares, enfermeiros e médicos vão passando no corredor, entre bebés que nascem e outros quase a nascer. Não sinto as minhas exigências como frescuras de grávida. Sinto-me respeitada. Sim, não fazem mais do que a sua obrigação, mas ainda bem que assim é. Reencontro o enfermeiro que ficou ao meu lado quando, mãe solteira, estive sozinha no meu parto anterior. Fez muito para além da sua obrigação e nunca lhe tinha agradecido pessoalmente. Foi o momento perfeito. E quis o destino que fosse este mesmo enfermeiro a fazer nascer a Maria Luísa.

 

Confesso que vejo os profissionais de saúde como entidades assim próximas do divino. Alguns, assim como o enfermeiro Jorge, ganharam para mim, um estatuto de qualquer coisa próximo de um anjo. E eu nem acredito nessas coisas.

Chego ao quarto que partilharei com mais sete mulheres e sete bebés durante duas noites. Não há silêncio, nem paz, mas há uma experiência maravilhosa de partilhar emoções; não há casas de banho privativas, nem comodidades de hotel, mas há limpeza e cuidado (impossível não pensar no pouco que ganham as auxiliares que trabalham em hospitais). E atenção, que a comida é boa apesar de não me contentar com pão e manteiga todos os dias ao pequeno-almoço (mas desenrascaram-me umas bolachas Maria). E há profissionais atentos, exatamente aquilo que as minhas hormonas sensíveis exigem naquele momento.

 

Na cama ao meu lado uma mulher, depois de uma cesariana, mal se mexe. Percebo que está cheia de medo, muito mais do que de dores. Chama a auxiliar e a enfermeira mil vezes. Falam sempre com a mesma paciência. A mesma que a mim me falta na segunda noite sem dormir. E penso: não me lixem, fazem mais que a sua obrigação.

 

Levanto-me às 3h da manhã para ir à casa de banho. Atravesso o corredor, à meia luz, num raríssimo momento de silêncio. A enfermeira está numa salinha ao fundo, é muito mais nova do que eu e imaginava-a a aproveitar a pausa para fechar os olhos, enviar uma mensagem, ou passear no Facebook. Entro e percebo que está a rever os processos e a estudá-los. Saio passadas 48 horas. Fui vista e revista. A minha filha foi vista e revista. À minha volta todas as situações foram tidas em consideração: ensinaram a dar banho, tiraram as dúvidas, encaminharam as consultas necessárias, chamaram a assistente social para as mães que precisavam, alertaram as mães para eventuais situações de risco. Nada foi deixado ao acaso mesmo que, em jeito de aluna repetente, alguns conselhos me pareçam chatos.

 

Saio passadas 48 horas com a minha filha registada e com cartão de cidadão pedido. Entrego apenas a nota de alta. Nem um cêntimo. Sei que pago aquilo que recebi sempre que os meus impostos são cobrados. Mas sei, e não me lixem, que estes profissionais fazem muito mais do que a sua obrigação. E sei o privilégio que temos nos cuidados de saúde que recebemos.

A todos os profissionais do Serviço Nacional de Saúde o meu profundo agradecimento.

Fonte: Dinheiro Vivo, por Catarina Beato